quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

CABO VERDE A FERNANDO DE NORONHA e Salvador

18/09/2008 Deixei Cabo Verde pela popa tenso e preocupado, pois as previsões na zona de convergência intertropical (ITCZ) que nunca é boa estava pior, mas se ficasse não sei quanto tempo demoraria para sair, e Mindelo não é um lugar para se ficar muito tempo, eu queria seguir meu caminho, preciso ir pra casa. Pedi para o Danilo via email, passar para a Cleuza as previsões que ela me passaria em nossos contatos diários, para ver se algo mudaria e eu pudesse fazer alguma manobra, para me escapar caso a coisa ficasse seria, Felizmente tudo ocorreu conforme previsões que eu tinha. Até as Canárias eu consegui baixar fax metrológico via SSB. Quando sai das Canárias rumo a Cabo Verde, não consegui mais Fax, acho que estou com algum problema na recepção, ou na freqüência. Saí a 1.30 da tarde em RM 202⁰ RV 190⁰ sabia que não poderia passar da longitude de 28⁰ até próximo a linha do Equador zero grau quando encontraria os alísios de Sudeste, se passar à corrente sul equatorial pode me levar ao Caribe, e neste momento quero ir pra casa, naveguei por trinta horas neste rumo, tentando ficar mais a West possível para tentar contornar o que estava na previsão, a motor por ter vento muito fraco apesar de favorável NE, não passava dos cinco nós. Primeira 24 horas na lat. 14⁰17, N long. 25⁰ 32, W fiz o balanço do meu progresso rumo ao Brasil, 167 milhas, a primeira noite foi tensa, mas tranqüila, dormi bem fiz todas as refeições, à noite o vento melhorou, 12 nós, para negociar uma velejada melhor com vento fraco baixei 20 graus para leste, dando assim um ¾ de popa confortável e uma velocidade de cinco nós, o segundo balanço sempre às 13.30 horas foram de 120 milhas só velejando, apesar de pouco vento, vale pela paz e silêncio. Terminei o segundo livro desde as Canárias, agora estou relendo outro que me dá dicas desta travessia, principalmente sobre a ITCZ. Com as previsões do tempo se confirmando, vai ser dentro do normal para esta zona, o vento deu uma reforçada agora 15 a 18 botei no RM 195 RV 181, este rumo devo manter até que encontre os alísios, que pode ser de seis a dois graus, ai tomarei um rumo próximo a 27⁰ de longitude até a latitude de zero grau, mudando meu rumo para Fernando de Noronha. 21/09, dormi bem sempre velejando, fui acordado pelo Zoinho (radar) mostrando negras nuvens pesadas, ainda bem que o vento tava fraco e o barco andou devagar, assim pego este troço com luz do dia, às 7 horas da manhã na lat. 11⁰05, baixou o santo, chuva e vento, o grande estava rizado só enrolei a genoa, este tempo me acompanhou por cinco milhas. Apesar de esperar por mais, o vento não passou de 30 nós nas rajadas, a chuva também eu esperava mais, mas ainda é cedo pra falar. Desde Lisboa mais ou menos 13 ou 14 de junho que não via uma gota de chuva só sol e poeira o barco estava um lixo de sujo, em Cartagena tem muita poeira, o barco ficou muito tempo por lá. Às dez horas fiz um contato com a Cleuza, em seguida o radar apita novas nuvens, iriam cruzar na proa de SE a NW, está era grande e assustadora, preparei o barco pra garantir liguei o motor, desabou água de todo lado, foi força de água, o vento que decepcionou também não passou dos 30 nós nas rajadas, feliz decepção! Descobri que tenho que impermeabilizar o Bimini e o Dog, chovia mais embaixo deles que fora. Mas alem das tempestades noites escuras, teve uma noite especial, antes de a lua aparecer o céu limpo e
videoestrelado com o mar espelhado, as estrelas se refletiam no mar, igual o visual do saco do céu em Angra, mas com mais nitidez, talvez por ser mais escuro, não tinha horizonte, fui uma das noites mais linda de toda a viagem, estas imagens que vão ficar na lembrança. Nos 10⁰ 30, N de latitude o vento para, navego no motor, mais tarde uma corrente de um nó contra, e o vento ronda pro sul, fraco, mas na fussa, acho que cheguei à Zona de Convergência Intertropical. Também nesta latitude mandei pra água uma garrafa com a primeira mensagem, queria por mais uma no zero grau, mas o moral não andava muito alto naquela latitude, bem, vamos ver se alguém acha está. O balanço às 13.30 horas ficou em 117 milhas. 22/09, esta noite me passei apaguei dormi da uma da madrugada até as sete horas direto, esqueci do relógio estou relaxando, nestes quatro dias, desde Cabo Verde, não vi nenhum navio, só agora de manhã apareceu o primeiro, agora vou ter que me cuidar mais. Apesar da zona que estou navegando ser mal humorada, com grandes nuvens fechando todo o céu, sempre estou navegando em uma clareira, de dia tem um buraco aberto com sol, e a noite o buraco se Parece com uma grande pizza com bordas de catupiri, com as estrelas e a lua que está em faze diminutiva. Sai de Cabo Verde a lua estava com 70%, hoje está com 40%, meu progresso nas ultimas 24 horas foram, 148 milhas. Quando entro no barco para fazer o almoço o Zoinho avisa que tem navio na proa, era um pesqueiro de 65 metros com bandeira das Malvinas vindo das Ilhas geladas do sul, rumo a Espanha, conversei via VHF com o comandante Luiz por mais de hora, me falando que estava a cinco meses navegando, e que amanhã faria aniversario 31 anos, conversamos sobre seu barco e o meu, acabei almoçando mais tarde, sempre é bom conversar com alguém na mesma situação, e o papo sempre é o mesmo não importa se é barco pesqueiro navio ou veleiro o assunto é Barco. Hoje tirei a bandeira de Cabo Verde da cruzeta, na hora que baixou me apertou o coração, fiquei emocionado, desde que sai foram varias subidas e decidas de bandeira, em nenhuma outra me senti assim, um sentimento diferente angustiante, talvez porque estou chegando ao Brasil, estou saindo do desconhecido que sai para conhecer, e agora chegando ao conhecido, talvez sentindo o sonho tornado realidade. A noite escureceu com grossas nuvens, pela primeira vez senti medo, toda a noite caia relâmpagos que clareavam todo o céu, pareciam cair ao lado do barco, nunca tinha visto tanto raio e tão perto, deu vontade de por a cabeça debaixo do cobertor para não precisar ver está cena. As noites quando estreladas, ficava deitado no cockpit, só observando curtindo o visual de um céu diferente, esperando as estrelas cadentes que eram muitas, fazia pedidos, às vezes deixava os pedidos já formulados de dia, para de noite só anunciar. É não ter o que fazer mesmo! Na latitude de 1⁰ 24,N long. 26⁰ 16, W, entrou os Alísios de SE, mudei meu rumo para 223⁰ Verdadeiros, neste rumo passaria entre as longititudes de 27⁰ e 28⁰ para ao atingir por o rumo em Noronha. Velejei por duas horas, e o vento rondou, veio para o Sw, ficou em 190⁰ Verdadeiros, 12 a 15 nós, por ser contra é forte já não bastasse chegar muito abaixo da latitude normal, ainda ronda e pra cara. Assim foram dois dias de contra vento, ai chegou o tão esperado Aluizio,(Alísios de Sudeste) este tripulante de Sudeste que iria empurrar o barco rumo a Noronha, chegou acanhado fraco sua força não passava de cinco nós, e aí com quatro dias aproximados para chegar e menos de dois dias de autonomia de diesel, tive que velejar de vagar, teve uma noite que o barco se arrastava a um e meio nó, que desespero! Vai atrasar tudo, eu que queria chegar um dia antes da regata para acompanhar a chegada dos amigos, dia 26 o vento melhorou, começo a me animar, de repente solta o carro da escota da genoa de Boreste, tudo bem, troquei pelo carro da trinqueta e seguimos, estes carros tem um parafuso aliem que não adiantava trava rosca, é o terceiro que se solta, um eu perdi na regata de volta a Ilha em Floripa voou pra água, este e o outro tive sorte não perdi, e pude consertar. Dia 26/9 às onze horas quarenta e nove minutos da manhã, cruzei a linha do equador, com uma comemoração tímida, mas feliz, acabava de passar para o nosso lado o hemisfério Sul, é a segunda vês que cruzo a linha do equador, a primeira vês foi indo de Fortaleza a Trinidad, eu e o Fernando (Veleiro Planeta Água), Também a comemoração foi tímida, pois estávamos com chuva e como era noite avia um pesqueiro suspeito em nosso traves. Sempre velejando agora com melhor vento, no ultimo dia às quatro horas da manhã, com 20 nós de vento acordei com uma atravessada do barco, fui para o timão às velas estavam aquarteladas, enrolei a genoa coloquei o barco no rumo, acionei o piloto automático, e nada, o hidráulico que eu havia trocado em Barcelona se foi, tudo bem era descartável mesmo, Toni Tornado estava sem seu braço, apesar de tudo não fiquei chateado, pois depois de navegar 1440 milhas desde Cabo verde, eu só iria timonear trinta e poucas milhas, me sinto um cara de sorte.Cheguei na segunda feira dia 29/9 as onze horas, depois de dez dias e 21.30 horas navegando a tempo de ver mais da metade dos barcos da regata chegando, com 1472 milhas desde Cabo Verde a Fernando de Noronha.
Singraduras a cada 24 horas, de Cabo Vede a Fernando de Noronha
18/9, 167 milhas. 19/9, 120 milhas. 20/9, 117 milhas. 21/9, 148 milhas. 22/9, 147 milhas. 23/9, 136 milhas. 24/9, 136 milhas. 25/9, 127 milhas. 26/9, 117 milhas. 27/9, 122 milhas. 28/9 a 29/9 às 11 horas 135 milhas.
Fernando de Noronha cheguei ancorei perto do lugar que sempre fiquei nas ultimas duas vezes, na minha proa estava o Aysso, ao meu lado de BB mais a proa o veleiro Bahia Nautica, e mais perto da praia os amigos de Floripa do veleiro Gosto D’água, e o Vandestad 29 Guga Boy. Ai pessoal da flotilha de vandestad do sul quem sabe uma Noronha futuramente, (Cruzeiro dos amigos Vandestad na costa leste da amizade) Vi a chegada da navegadora solitária Isabel Pimentel, com seu pequeno barco, Encontrei muitos amigos e conhecidos, mas pude muito pouco curtir a Ilha, a faina era muito grande, teria que me certificar o real problema do piloto, abastecer que aqui em Noronha a logística é complicada, enfim, tudo que uma grande singradura pede depois de completada para continuar seu destino. Falei com o Daniel da DM Nautica, Veleiro Dom Munõs, amigo e tripulante da melhor qualidade, logo conseguiu com meu outro amigo Osmar do Veleiro Free Wind, que estava instalando um linear hidráulico exatamente igual ao meu original não descartável, que prontamente suspendeu a instalação, e mandou despachar para Noronha, também com a ajuda do Richard,Veleiro Perkeu com seu conhecimento de logística se prontificou e garantiu que em vinte quatro horas a peça estava em minhas mãos na distante Ilha,uma viagem desta sempre tem um sucesso maior quando se tem amigos dando apoio em terra, torcendo e ajudando como se estivessem a bordo, Obrigado. Falei também com o Jean do veleiro Janmaluce, ele me informou que a marinha está com problema no fax metrológico, e que a ultima vez ficou nove meses sem funcionar, então não é problema da minha freqüência. Na ida ao posto com quatro bobonas de 25 litros, subindo a ladeira do Porto de Santo Antonio, encontro os amigos do clube, Miguel e Patrícia, Veleiro Confidence, que me ajudaram no abastecimento, neste momento me senti no Brasil, principalmente quando foram a bordo, tomamos cerveja os três no cockpit, estou em casa. No outro dia marcamos um mergulho no navio, o que se tornou meu único mergulho este ano em F. de Noronha, almoçamos a bordo, me levaram as compras e me trouxeram de volta ao porto, nos despedimos, eles estavam com passagem de volta a Porto Alegre nesta tarde. Às 4.30 horas peguei o ônibus e fui ao aeroporto buscar parte do piloto. Que alegria estava La o danado, voltei ao barco, em 20 minutos estava tudo funcionando perfeitamente. Tirei a graxa do corpo, e sai de bote para a festa de entrega de prêmios que estava quase começando, encontrei mais amigos, é muito emocionante ver amigos como o Junior de Floripa, do barco Gosto D’água, delirar no pódio conquistando o troféu de primeiro lugar na categoria, repetindo 2007 na animação e gritos de Bi Campeão. Encontrei os amigos de Tapes Rubinei Veleiro Dom Bruno, e Sussuca amigo e conhecido desde os anos 80. Encontrei o Fernando Maciel e a esposa Marta,(Veleiro Planeta água) botamos os assuntos em dia, assistindo a entrega de prêmios da Regata. Quinta feira últimos preparativos, na hora de sair um delta 32 que chegou rebocado por perda do leme que estava fundeado em minha proa, rompeu o cabo e foi bater no Entre Pólos, amarramos o barco na popa, emprestei uma ancora e fiquei na espera da faina, para com o bote podermos levar o barco para um fundeio, liberado agora o rumo é Salvador.
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Sai de Noronha as 11.30 hora do Brasil, vento SW, 15 nós orça folgada até as 17 horas depois na cara, de noite melhorou o ângulo de orça, mas muitos pirajas, no segundo dia a coisa engrossou orça 20nós com ondas de 3 a 4 metros descompassadas vindo de todos os quadrantes dando assim a navegada mais desconfortável de toda a travessia, durando todo dia e terminando de madrugada, quando a coisa ficou boa depois de 400 milhas uma velejada agradável e merecida, vento de 14 a 17 nós de traves a ¾ de popa, melhor que isto só um churrasco que não vejo há quase seis meses, mas em Noronha consegui uma picanha, fiz no forno com sal grosso deu para sábado e domingo, um verdadeiro final de semana.
Todos planos desta travessia em solitário está saindo conforme planejado, somente as singraduras diárias que estão abaixo da minha media, não contava com o baixo rendimento, pois, para sair só, a prioridade em primeiro lugar a minha segurança e a do equipamento. Sempre, com exceção de duas vezes, antes de escurecer rizo a grande, se o vento ta muito forte troco a genoa pela trinqueta, tenho que dormir, às vezes o vento diminui e só me dou conta quando acordo, mas tudo bem isto só vai tomar um ou dois dias a mais no total da travessia. Em Cadiz na Espanha, ganhei de presente do Andreas, Veleiro Canibal, uma cafeteira tipo Italiana, que durante a viagem foi muito útil, deixava ela sempre pronta bastando só acender o fogão que em seguida o café estava pronto, uma maravilha para as madrugadas que teria que ficar acordado, devido o movimento de navios ou alguma tempestade não esperada.
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Cheguei a Salvador e a 13.30 horas depois de atracar no Centro Náutico Da Bahia, apesar de terem mudado de nome, ainda me soa mais náutico o nome anterior e me faz sentir melhor. Botei os pés no trapiche, oficializando a minha entrada no continente Brasileiro, às 13.30 horas 07/10/2008.Tendo navegado nesta ultima perna desde Fernando de Noronha, 716 milhas em cinco dias e duas horas. Aqui no CNAB conheci Manfred, que com seu Barco já atravessou nove vezes em solitário o atlântico, já navegou na Georgia do sul, agora se prepara para ir a Nova Zelândia, talvez, só com uma parada, ele esteve no Entre Pólos me deu seu filme da Georgia com a incrível tempestade com ondas de 12 metros, uma loucura.
Singradura a cada 24 horas
02/10, 135 Milhas. 03/10, 132 Milhas. 04/10, 141 Milhas. 05/10, 141 Milhas. 06/10, 26 Horas, 167 Milhas.
Agora é Rio de Janeiro assim que a previsão deixar, obrigado a todos.
Fernando de Noronha






Algum Lugar no Atlântico





Linda Tarde de Calmaria






Peixe Voador

Mesa de Navegação do Entre Pólos